Review | Call of Cthulhu

Não há mar sombrio o suficiente para diluir a cor do meu sangue.

Em Call of Cthulhu assumimos o papel de Edward Pierce, um veterano da Primeira Guerra Mundial que fez parte da Ofensiva Meuse-Argonne e um dos poucos sobreviventes d'O Último Batalhão, unidades norte-americanas que sofreram muitas baixas devido a ataques de artilharia inimiga e aliada. Forçados a manter a posição por muitos dias, cercados pelos corpos dos colegas mortos, sem comida nem suprimentos médicos, os soldados foram dados como perdidos pelos exércitos de seus países. Pierce, que agora atua como detetive particular, ficou traumatizado por causa da guerra e passou a tomar remédios para dormir e ingerir bebidas alcoólicas para espantar os pesadelos que o atormentam, inclusive, ao longo da campanha é possível escolher entre consumir ou não bebidas que influenciarão no decorrer da sua jornada.

O jogo se passa em 1924, em Darkwater, uma ilhota nada hospitaleira habitada basicamente por descendentes de baleeiros que montaram um posto de suprimentos no século XIX e que sofreu muito com o colapso da atividade econômica. A aventura começa quando o empresário Stephen Webster visita nosso escritório e nos convida com um ar de persuasão a investigar um caso e ajudar a provar que sua falecida filha, Sarah Hawkins, não estava louca. O caso Hawkins é cercado de mistérios e provavelmente te prenderá até o fim, a história e a atmosfera são de longe os melhores aspectos do jogo, apesar da falta de profundidade em certas questões e de alguns tropeços bobos.

Não entrarei no mérito de dizer se o jogo segue ou não a risca toda a questão relacionada aos Mitos de Cthulhu, pois não sou especialista no assunto, mas o que posso dizer com certeza é que a mitologia criada por Lovecraft não foi explorada de forma satisfatória, principalmente em relação as suas criaturas e questões filosóficas, pois o Cosmicismo empregado de maneira geral é muito raso e o terror, infelizmente, é só um figurante nessa história.

Ainda que o terror seja secundário, este jogo conta com uma atmosfera riquíssima que contribui excepcionalmente para a criação da bolha imersiva que ficamos envoltos ao jogar um jogo, tudo graças a uma direção de arte maravilhosa que brinca com cores e a trilha sonora surreal que enriquece ainda mais a experiência. O destaque fica pela trilha sonora que consegue encontrar sintonia em diferentes momentos, por exemplo, nos poucos momentos de ação apresentados ela trabalha para causar adrenalina, nos momentos de tensão ela consegue abastecer o veículo do horror para causar apreensão, e por aí vai.

A ilha é o lar de todos os clichês de terror possíveis, incluindo os locais pelos quais você passa: uma mansão, um hospital psiquiátrico, uma série de túneis secretos, cavernas, um boteco de pescadores, galpões abandonados e outros. No que diz respeito a ambientação este é um jogo se sai bem, apesar dos locais por qual passamos serem limitados e suas dimensões demasiadamente reduzidas, há espaço suficiente para contar a história, mas ao jogarmos é perceptível que as escolhas feitas pelos desenvolvedores simplesmente não fazem condizem com o que é mostrado, parece que algo não se encaixa ou que simplesmente não precisaria estar ali, estou falando da jogabilidade.

É importante mencionar que este jogo não é de um RPG tradicional do qual estamos acostumados, apesar de ser apresentado e vendido como um. Há sim, opções de diálogos, decisões que influenciarão sua jornada e caminhos diferentes para se seguir, mas há certa limitação em todas essas questões, fora o fato de que o desfecho é quase sempre o mesmo, é um jogo maleável, porem linear, se é que isso faz algum sentido. Enfim, o que de fato temos aqui é um jogo de aventura e investigação com elementos RPG e algumas outras características, tendo isso em mente, saiba que ele talvez decepcione jogadores que buscam por experiências menos lineares ou repletas de conteúdo, também é válido mencionar que o jogo é relativamente curto e praticamente não há fator rejogabilidade, apesar de contar com quatro finais.

Há uma árvore de habilidades do qual o jogador poderá usufruir ao longo da jornada, e dependendo das escolhas na hora da evolução, novas opções serão apresentadas, como por exemplo a melhoria do grau de persuasão que o personagem exerce em uma conversa graças ao aprimoramento da Eloquência ou o desbloqueio de uma ação usando força física durante uma situação tensa. Fora isso, há também diversas situações em que você poderá liberar opções de diálogo e interação caso tenha explorado o cenário e/ou interagido personagens anteriormente.

Até aí temos justificativa para o sistema existir, entretanto, no decorrer da jornada você perceberá que o sistema não faz muito sentido, já que não há nível de personagem, missões secundárias ou experiência em si, você receberá os pontos de habilidade ao decorrer do jogo, passando pelos locais dos quais é necessário passar, caso contrário o avanço na história seria impossível, fora isso, saiba que é possível avançar na história mesmo sem usar seus pontos de habilidade para desbloquear tais opções citadas. É isso, Call of Cthulhu é um jogo que dá liberdade ao jogador para percorrer caminhos diferentes, tomar decisões e diferentes abordagens em um mesmo assunto, possui elementos RPG que casam bem com isso, mas o fato é que tudo isso é irrelevante pro jogo em si, pois o sistema simplesmente não precisaria existir.

No geral, toda a parte da jogabilidade é bem simples e não há mecânicas diferenciadas que façam o jogo de destacar entre os demais, além disso, é perceptível que a equipe da Cyanide optou pelo caminho mais simples possível na hora de contar a jornada de Pierce, por exemplo ao examinarmos os sistemas implementados e os deixados de lado. O jogo sequer conta com um sistema elaborado de arrombamentos de trancas, em vez disso, ele substitui o lockpicking como visto em Skyrim por um simples apertar de botão, outra das características decepcionantes para um jogo que é literalmente vendido como RPG.

De quebra-cabeças fáceis e elementos de furtividade extremamente simples regados com uma inteligencia artificial deplorável até um combate tão mal elaborado que se eu fosse diretor mandaria remover do título e elementos de exploração limitadíssimos, é difícil defender qualquer aspecto da jogabilidade deste jogo. Entretanto, é fácil se acostumar com a simplicidade mostrada e acredito que se você mergulhar no mar de caos com olhos um pouco menos críticos é bem provável que sua experiência com o jogo seja satisfatória.

Desde Of Orcs and Men, passando por Master of Shadows e Shards of Darkness, se você conhece o estúdio por trás desses títulos sabe que todos eles carecem de boas animações, expressões faciais e sincronização labial, infelizmente este jogo também se inclui nessa lista extensa da Cyanide. Cthulhu dispõe de péssimas animações e mostra um trabalho no mínimo desleixado por parte dos animadores, fora isso, conta com uma modelagem tão simples que faz os personagens figurantes parecerem idênticos, prejudicando muito a imersão de quem joga. Fato injustificável, visto que há pouquíssimos personagens figurantes no jogo e o valor cobrado pelo produto é de ''AAA'', sim, nos consoles o jogo custa absurdos R$229,90/$59,99.

Infelizmente o jogo também fica para trás na questão gráfica, além dos modelos de baixíssima qualidade citados anteriormente, ele também possui texturas extremamente ultrapassadas que fazem o jogador duvidar se realmente usaram Unreal Engine 4 como motor gráfico. Entretanto, devo salientar que como software temos um produto muito relativamente otimizado e que provavelmente rodará bem em sua máquina, desde que ela esteja dentre os requisitos mínimos, é claro.

Ele também carece de certas opções técnicas, como por exemplo a falta de uma opção para ajuste de campo de visão (FOV). Durante as cerca de 10 horas que me aventurei pela ilha de Darkwater sofri com vários problemas técnicos relacionados aos gráficos, atrasos de renderização, algumas quedas de frames ocasionais e pelo menos três travamentos que me fizeram reiniciar o o jogo e perder certo progresso (mesmo com salvamento automático ''funcionando'').

Conclusão: Relutei bastante na decisão de recomendá-lo, mas assim como os desenvolvedores acabei optando pela decisão mais simples.

Apesar de seus muitos problemas graves, o jogo possui uma boa história e consegue contá-la de forma satisfatória, além de prender o jogador até o último instante. Infelizmente certas mecânicas implementadas não foram trabalhadas da melhor maneira possível, mas felizmente isso não prejudica a experiência, apenas deixa um pouco a desejar.

Ele não explora o Horror Cósmico de Lovecraft da melhor forma possível e por isso talvez não seja a melhor experiência para quem busca terror, mas se você é uma pessoa que está em busca de um jogo de investigação, mistério e aventura nos moldes do Sherlock Holmes da Frogwares, diria que este jogo é uma boa pedida, em promoção, é claro.
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